Perguntando a um amigo sobre o filho, ele respondeu: “Vai bem. Mas, você sabe, ele está entrando na adolescência e já viu, né?” Esperei que ele falasse algo mais, mas ficou em silêncio por alguns segundos e concluí: “Mas vai bem... mas vai bem.” Preferi não aprofundar a questão e fiquei sem saber a que ele se referia. Só saí com a sensação de que o filho estava começando a dar algum problema.
É comum ouvir os pais dizerem que os filhos estão na adolescência, naquela fase difícil; para outros, é apenas uma fase de mudanças mais visíveis, de questionamentos mais ousados, de tentativas, de posicionamentos mais radicais, de busca de independência, de impulso, de auto-afirmação, de maiores riscos nos relacionamentos. É também uma fase de muita dúvida, insegurança ameaça e medo. É uma fase de decisões vitais e escolhas duradouras. Portanto, é um momento de tensão, conflito, confusão e ansiedade.


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Adolescente ou aborrescente?
Adolescência é um período da vida em que você pensa que é, mas não é; você se acha o máximo e se descobre o mínimo. você se julga capaz e descobre que precisa transformá-lo em realidade, você se sente o super-homem ou a mulher-maravilha, mas descobre que precisa de esforço e perseverança.
Apesar de todas as reclamações, a adolescência é um momento da vida que muitos adultos gostariam de voltar a viver. É também aquele período do qual muitos não saem. Parece até que está ficando cada vez mais longo: primeiro, ela estava encerrando aos 18; depois, aos 20; mais tarde, aos 25; hoje, estamos nos aproximando dos 30 e a pessoa ainda é considerada adolescente pelos pais – porque a adolescência está associada à dependência dos filhos em relação aos pais. Mas o quadro vai ficando tão confuso que na medida que me relaciono com as pessoas, não sei se os filhos são dependentes emocionais dos pais ou se os pais estão ficando mais dependentes emocionais dos filhos.
De qualquer maneira, o adolescente precisa aprender algumas regras de vida social e comunitária, para assumir o papel de adulto. Ele precisa praticar certas tarefas para se qualificar como adulto útil e responsável. No seu aprendizado ele se beneficia de duas fontes: a educação e a experiência. Na educação, os pais entram como os primeiros mestres. São os professores que vão traduzir para os filhos a interpretação que dão para a sociedade e a cultura em que vivem. Vão ensinar algum tipo de valor, de tradição, que encaminhará o filho pela vida. Na posição de professores, eles manipulam a punição e a recompensa. Se os filhos correspondem aos ensinos paternos desejados, são recompensados; caso contrário, são punidos. A forma de punir cria mais problemas entre os educadores.

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Um caso com a autoridade

Em essência os pais vão transmitir certas regras que podem ou não ser obedecidas pelos filhos. A obediência depende da vontade, da disposição de obedecer ou não. Ela não é automática ou pode ser imposta. A submissão pode ser imposta, mas a obediência não. A ordem passa por uma avaliação, um julgamento, uma decisão antes da obediência ser escolhida. A validade de uma ordem depende da disposição de obedecer. É a vontade de obedecer que dá validade à regra, que dá validade à autoridade que impôs à regra. A legitimidade da autoridade está sujeita a disposição de obedecer. Para que a autoridade seja acatada, ela precisa ser coerente, honesta e justa. Portanto, para os pais merecerem respeito como autoridades, eles precisam aplicar a recompensa e a punição, aplicando e respeitando uma ordem lógica e fazendo sentido nas suas exigências. Eles precisam ser razoáveis naquilo que pedem. Ser uma autoridade é receber um destaque, mas que deve ser merecido e não imposto. Se a apelação for pela imposição, a autoridade perde toda a legitimidade. O filho pode até se submeter, mas jamais obedecer. Mas cedo ou mais tarde, a submissão leva a uma revolução.
O relacionamento do adolescente se torna difícil com a autoridade, porque ele começa a ver a incoerência, a desonestidade, a hipocrisia entre o que se prega e o que se vive. Ele passa a sofrer na pele a injustiça no trato em todas as suas manifestações quer seja na aparência, no sexo, nas finanças, nas ações. Ele se choca. Seu estado piora porque as descobertas são feitas no momento em que seu amadurecimento moral esta na fase de que lei é lei e tem que ser obedecida. É a fase do “olho por olho”. Ele não compreende muito bem o amor, a compaixão e nem a exceção. A incoerência dos pais se torna um mal. Perceber uma falha na honestidade cai sobre ele como um choque. Agora o que mais fere é a injustiça. Se há um elemento que cria atrito e afasta o filho dos pais é a injustiça. Na aplicação das regras, os pais não podem ser injustos, porque desperta a idéia de falta de lisura no procedimento, de desrespeito pela igualdade, de iniqüidade. Com a injustiça na distribuição dos recursos afetivos ou matérias, os pais despertam a sensação e a ameaça da privação e da carência.
Não é estranho que adolescente crie problemas. Ele é um idealista, sonha com um mundo ideal, descobre um mundo real, que é paradoxal porque cobra o que não paga. Um mundo que pede o que não deu. Quanto mais protegido da experiência e das conseqüências foi o adolescente, mais dificuldade ele vai enfrentar para lidar com a vida adulta. Da experiência, ele criou uma visão mental do mundo que o cerca.  São as informações que ele acumulou para tomar as decisões que e fazer as escolhas que lhe farão bem ou mal. Seu sucesso ou fracasso sai das mãos dos pais e vai para suas próprias mãos. O que necessitava, o que queria ou desejava era providenciado; agora, não está sendo mais. Os pais vão deixando de ser uma fonte de satisfação; agora, é a própria escolha com suas conseqüências positivas ou negativas que passam a valer. Se não estiver preparado para as escolhas, corre o risco de acumular resultados negativos. O processo de tomar decisão amadurece aos poucos.  
A decisão dos adolescentes sofre muitas pressões dos colegas e dos grupos a que pertence. Sofre por causa do medo da rejeição  e da busca de aprovação. A influência  dos colegas sobrepuja a influencia dos pais – isso deixa o adolescente em estado de vulnerabilidade muito grande. Sua capacidade de se auto-administrar fica ameaçadas porque suas decisões podem ser muito mais em função das influencias dos colegas, do que fruto das próprias necessidades ou vontades.

Belisário Marques quando escreveu este artigo era doutor em psicologia pela universidade de Maryland, nos Estados Unidos.